sexta-feira, 24 de maio de 2013

um quase poema para um quase homem

A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul [...]. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.

Manuel Alegre



fotografia de eurico portugal
Aveiro, na companhia do Gangue, amigos-fotógrafos de Coimbra


a tinta a atiçar tumultos
na intermitência dos objetos,
lentamente,
como quem afasta os cabelos
à espera dos lábios.

pode ser um ponto só,
um quase verso adivinhado
pelas pálpebras
ou o emissário rebelde de um deus
inacessível,
pode ser sinal curvo a abrir
sulcos na terra e
na sombra do gelo
fecundando metáforas e cedilhas
porque a escrita atira para cima do peito
anéis de palavras e uma cruz de
silêncios roídos.

é aí que ele
deslaça os passos e se esconde
a escrever,
é aí que ele
desafia a violência raspada
dos erros,

é aí ele,
talvez-poeta
coração de rimas amarrado às mãos,
é aí ele,
quase-poeta
deus que existe sem ter de provar existir:

assim que conseguir afastar as mãos e
ejacular o poema,
o nome e a morada não serão apenas a verdade trocada
nas costas de uma carteira de fósforos
tão certa como reticências,

só então ele,
ainda ele,
segura o instante vago da nudez
e percebe:

eis o poema a estourar-me nas mãos.

15 comentários:

  1. Belíssimos, do "verso que não há", de Manuel alegre, passando pelo espetáculo fotográfico, até chegar ao poema, com imagens tão ricas, como o poema ejaculado. Assombro e encanto, sempre, por aqui.

    Beijos, poeta!

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    1. quantas possibilidades se esgotam nesse verso que não há, taninha? todas. e por não haver, tudo nele cabe. é então que a poesia se faz assombro e alumbramento.

      beijinho!

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  2. Paradoxalmente, assim nasce a poesia: fruto de um instinto sexual, viril, violento que jorra e explode de dor e prazer;filha dum deus sedutor, que a faz ser sem ter que existir, que a eterniza e sublima.
    Grata por este momento de absoluta rendição às palavras.
    (A foto complementa o poema, e permite outras leituras... Boas recordações...)
    Parabéns ao homem-poeta-fotógrafo...
    Beijos

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    1. alcina,
      é mesmo assim, a poesia, movimento de ires e de vires de costas para a matéria, sempre indiferente ao sangue e ao com-passo dos dias; rotação e translação de im-possíveis a traçar, sem geometria, a dança luminosa do ser - exorcismo primeiro do que em cada um de nós não é.

      beijinho!

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  3. Eurico querido,
    mais do que o processo, a Poesia é vida que se revela, é a escrita onde não há letras, um sussurro afônico ao pé do ouvido, adivinhado, imaginado e sonhado. É o escorrer da alma feito mel, ali, na ponta dos dedos onde a luz decreta o infinito.

    E por aqui faço questão de deixar-te o primeiro poema que me foi dedicado na minha vida (na verdade, segundo, pois recebi um na adolescência de um anônimo, nunca soube quem foi o poeta:)).
    Julgo ser o melhor presente a se receber. Embalado em papel camurça e fita de palha, um poema é Eternidade, assim mesmo, com maiúscula.

    Tecido boreal
    - Jorge Pimenta-

    alfabetos sem gramática e decifração
    agitam o oceano
    enquanto a voz desprende
    limos talhados com escopo e memória

    em vigília espantam feras
    e tocam a cassiopeia
    porque as estrelas que cruzam os desertos
    nunca são o que nos separa dos homens.

    Beijos com saudades!

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    1. aninha,
      só a poesia consome em chama viva enquanto, nas cinzas, o plantador de sonhos se atreve a desenhar com a ponta dos dedos: são imagens sopradas a cavalgar as nuvens enquanto o rosto se dissolve nas mãos: e todo o tecido é milagre acontecido na aurora boreal.

      beijinho em tons de orvalho!

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  4. Eurico,
    um presente da poesia-vida:

    http://www.youtube.com/watch?v=INgXzChwipY

    Mais beijos!

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    1. como a luz que não se extingue, há melodias e imagens-tempo que se fazem autênticos poemas errantes no dorso dos dias...

      maravilha, este there is a "light that never goes out" e o seu "heavenly way to die" - poema-vida!

      beijinho intemporal!

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  5. Muito, muito bom!

    Seiva que jorra e fecunda os sentidos.

    Beijinho

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    1. a vida a correr, a vida a per-correr, a vida a acon-tecer.

      beijinho, sandra!

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  6. esse não ter que pulula nas mãos, aquilo que só acontece porque nos corrói uma existência prestes a vicejar, embora não saibamos desse mister quase nada, quase nada


    abraço

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    1. esse não ter que acende as mãos em torno de um quase nada que é, afinal, tanto... e por isso corremos e por isso mordemos e escrevemos com todas as cores que inauguram o sangue do poema; sim eu sei, somos nós quem queima as cicatrizes mais renitentes da terra neste quase húmus com que alimentamos o verso.

      abraço, assis!

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  7. quando se deixa o poema habitar o corpo, perde-se o domínio das mãos!

    Maravilha!

    beijo, poeta amigo!

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    1. e é então que tudo se faz [im]possível.

      beijinho!

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  8. Recolho-me a minha insignificância...

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