sexta-feira, 22 de março de 2013

o verbo e os estilhaços do silêncio


Dói-me o intervalo que há entre o que pensais e o que dizeis… […]
Não sei que é isto mas é o que sinto…
Fernando Pessoa, O Marinheiro


fotografia de eurico portugal


perguntas-me o que sou capaz
de ainda reconhecer.

desvio-me da pergunta
como quem tropeça,
evito os estilhaços
e volto-lhe as costas
[toda a linguagem queima quando
desferida por lábios
a afiar as lâminas dos deuses].

para trás, a certeza de
de uma distância percorrida
devagar por nunca saber o que respira entre
as palavras e o horizonte que as
delimita,
dois ou três livros sublinhados
pelo olhar,
tardes esquecidas que vieram comer
a luz,
copos a vigiar a noite
e um silêncio, como os cabelos,
estendido por fora da gola
e de alguns flocos de frio tombados.
de tudo te escondi:
álcool, poemas, palavras azuis, chão,
cães e ruas a farejar
nomes
um espelho vazio e alguns
[mais do que desejei]
agora não, depois sim, talvez mais logo,
de tudo fugi e só a quase nada
deixei debicar migalhas
de certezas.

que é feito do tecido com poros
escancarados
à espera que a noite selasse palavras
em dissolução lenta, rasteira,
quase invisível na mudez
de mim?

escondemo-nos num silêncio
que talvez nunca tenha sido
nosso,
tantas vidas esquecidas
e o olhar de costas para a porta que teima
em permanecer fechada…

ambos dissemos já o silêncio. e agora repetimo-lo
com todas as palavras.


18 comentários:

  1. este dístico final é assombroso de realidades,


    grande abraço

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  2. Poeta, querido! Muitas imagens aqui maravilhosas, embrigadas e embriagantes, mas realmente esse final é um achado!

    E eu embriagada. Aqui, sempre.

    Beijos,

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    1. taninha,
      sempre muito especiais as tuas palavras, dessas que fazem eco em todos os anos e naqueles que os habitam.

      beijo grande!

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  3. Os meus dois comentários não foram publicados. Uai! porquê? Algo de errado aconteceu no envio dos comentários, se calhar, ou disse algo de errado, ou...
    No primeiro falava do poema anterior e no segundo perguntava qual era o filme do tarantino que o Eurico fotografou para ilustar o poema "depois[ou o tempo advérbio na linguagem e na boca]. gostava de saber, por curiosidade.
    Este poema é um achado seu que devorei até ao tutano das palavras silenciosas, especialmente a última estrofe.

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    1. obrigado, célia!
      sobre o filme de tarantino: a verdade é que não fotografei nenhum frame de um filme dele, dizia, antes, que para a foto me tinha inspirado num filme de tarantino; [confesso que não sei já de qual se trata e não sei mesmo se foi num filme dele ou num qualquer movimento onírico meu...].

      um abraço!

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  4. O silêncio nunca é de ninguém...

    Há aqueles que ele cativa...
    Se prende?

    Há um silêncio cativante em tuas palavras!

    Beijo, meu amigo!

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    1. o silêncio de ninguém que a todos toca... algumas vezes sem deixar que o toquemos. sei-o com palavras... sei-o sem elas.

      beijinho, jô!

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  5. Percebo que muito do que fugimos vai parar no poema, com esse lugar de destaque, fazendo troça da sombra, nosso lugar de refúgio.

    Beijo.

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    1. e quantas coisas se fazem mais próximas quanto mais delas pensamos fugir?

      beijo, larinha!

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  6. da boca pra fora: os mísseis de longo alcance
    da boca pra dentro: um detonador solitário

    Tonta, por mil anos, com tantas imagens inquietas

    bj grande, meu poetíssimo

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    1. ai, e a explosão que tarda...

      beijos, iríssima!

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  7. Um crescendo de imagens e sentires para um final magistral.

    Deixo-te o silêncio do meu beijo e votos de Páscoa feliz.

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    1. um abraço sem imagens mas de sentires para ti, sandra.

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  8. Eurico, querido,
    maravilhoso poema!

    Peguei viagem por um caminho paralelo do silêncio, e por aqui deixo um poema do mexicano Jaime Sabines: "Yo no lo sé de certo".

    "Yo no lo sé de cierto, pero supongo
    que una mujer y un hombre
    un día se quieren,
    se van quedando solos poco a poco,
    algo en su corazón les dice que están solos,
    solos sobre la tierra se penetran,
    se van matando el uno al otro.

    Todo se hace en silencio.
    Como se hace la luz dentro del ojo.
    El amor une cuerpos.
    En silencio se van llenando el uno al otro.
    Cualquier día despiertan, sobre brazos;
    piensan entonces que lo saben todo.
    Se ven desnudos y lo saben todo.
    (Yo no lo sé de cierto. Lo supongo.)"

    Beijos muitos,
    no aguardo de um novo poema para ver e ler!

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    1. aninha,
      que melhor resposta ao verso senão com outro verso. e como pelas tuas mãos se me abre um tão vasto horizonte de autores fantásticos que desconhecia e de suas linguagens indecifráveis - porque se sentem à bolina das palavras. até porque há silêncios que repetimos com todas as palavras: "Yo no lo sé de cierto. Lo supongo."

      beijinho!

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  9. querido amigo, chego tarde mas não tão tarde assim... para te ler o tempo dilui-se em tudo, menos importãncia.

    "para trás, a certeza de
    de uma distância percorrida
    devagar por nunca saber o que respira entre
    as palavras e o horizonte que as
    delimita..."

    sempre belo, sempre horizonte...!
    beijinho grande!

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    1. imenso horizonte é o da tua amizade que percorre todas as minhas fases de escrita: circum-viagem, viagens de luz e sombra, agora este orvalho... obrigado, querida amiga!

      um beijo!

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