I. são assim as cidades
são assim as cidades
telhados do tamanho da idade
a erguer-se como pombos
com sílabas nas asas e
nomes que não envelhecem no peito.
são sons, ruído, vertigem e velocidade
mas dentro do teu olhar sonâmbulo
apenas a embriaguez de um segundo
a queimar-nos as mãos,
esse instante que passa mais lentamente
do que todo o tempo.
fotografia de jorge pimenta
II. Escalada e abismo
sei as escadas do corpo
em que a luz passa de boca em boca,
sei de escadas plenas
a ascender e a mergulhar
nos lugares recônditos do silêncio:
um nome, um rosto, um talvez recolhimento
na ressuscitação do pó.
sei de escadas...
lá onde tudo é outra coisa.
fotografia de jorge pimenta
III. requiem para uma cidade adormecida
já não me engana
a cidade
e o vício torcido na pele,
toda ela hábitos de palavras e
esconderijos de silêncio
às vezes atiro-lhe as mãos,
outras a minha loucura
e ela,
sempre insatisfeita,
abre a boca e engole-me na voragem
de serpente lasciva
a sibilar desejos
e algum do meu frio pela voz
no interior da idade,
a pedra oculta-se camaleónica
e, quando paro para serenar,
eis que toda ela se ilumina
mas ninguém respira já no interior das casas
já não me engana a cidade e
das estrelas nada mais espero do que palavras
de sentido lascado.
fotografia de jorge pimenta