terça-feira, 30 de julho de 2013

ode ao corpo e a todas as suas pétalas

... o arrebatamento a que são dadas certas águas.

Luís Miguel Nava

entrego-te o corpo
a que deste o mundo,
corpo-homem
febre animal fruto
de pele açucarada
sem clichés ou hesitações,
[
agarro-te as escamas
que volteiam
como peixe esquivo algures
entre a terra e o céu,
[
farejo-te a estrela, os lençóis
de luz
para beber de ti o sorriso
e a pálpebra fechada,
[
mordo-te o palato
à distância do umbigo com que gritas
nunca
[
mergulho os lábios
nas gengivas:
[
e o mel
em cascata, a explodir
entre as pétalas e a raiz,
é cavalo de encontro às nuvens
farejando crisântemos e pólenes
como um poema de carne
nas tuas mãos
brancas
silenciosas
absolutas
[
como todas as coisas que respiram
mesmo depois de morrerem.


fotografia de jorge pimenta 


17 comentários:

  1. Querido Jorge,
    mesmo sentindo ser tua postagem mais ampla, optei por trazer dois fragmentos de poemas partindo de um viés. Porque os achei belos, porque pensei nos ecos de palavras, de silêncios, de tudo: extensão do corpo que se projeta na extensão de outro corpo.

    Do mexicano, Jaime Sabines, - Diálogo sobre el amor que no se dice -

    “... cada vez estoy más joven para dejar de amar
    yo quiero ese amor que se sucede
    verbo imberbe en cama adentro
    en el salvajismo de los besos
    en una mirada insoslayable inquieta
    en un abrazo de misterios
    entre dos personas que no se dicen nada.”


    Do uruguaio, Eduardo Galeano, — El libro de los abrazos -

    “Queriéndose sin decirlo y abrazándose sin tocarse.”

    Beijos de até!

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    1. a poesia explicando-se a si mesma, aninha, nesse encontro de universais a que chamamos de sentires. especialmente tocantes as palavras do celeste galeano.

      um beijo "de misterios" para ti!

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  2. Poema de eriçar os pêlos da pele. Arrepio poético: nossa!

    Beijos, queridíssimo!

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    1. as palavras que apontam à substância, taninha. assim, atento, à vertigem do desejo vagabundo num tecido poroso de tantas imensidões. e a poesia a chegar mais longe do que o corpo.

      beijos mil!

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  3. este poema parece um céu com nuvens que a gente vai dando formas enquanto mira!

    beijos, poeta das imagens pulsantes!

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    1. o desejo, o espaço, a palavra - e tudo vibra!

      beijinho, jô!

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  4. jorgíssimo,
    voltar aqui é como retornar à minha própria casa.
    o poema?
    ele é cio.

    abraçoes,
    r.

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    1. robertílimo,
      agora em nome próprio e ao arrepio de identidades outras: a casa sempre foi tua e minha, pois somos muito mais do que o nome que nos veste.

      o poema? grito-animal, apenas.

      abraço!

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  5. as coisas que teimam
    insistem em vicejos
    e não se quedam
    mesmo em precipícios



    abraço

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  6. “Entrego-te o corpo”

    É absolutamente perfeito. É real. É cru. É a única possibilidade, concreta, de possuir o homem, qualquer outra tentativa é invenção.

    Poema-bicho cheirando a cio. Impecável!!!

    Bj, queridaço poeta-imenso

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    1. quanto remanesce do tanto que se entrega, ira-poeta-mulher?

      beijo amigo!

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  7. o corpo da entrega respira depois de morrer.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Fantástico momento de encontro com o nosso querido poeta Jorge Pimenta!
    Poema de entrega viril, de voluptia ..poema onde a palavra coberta de sémen, se reproduz e perdura, mesmo depois de morta...mexe-se, respira , seduz e se faz...

    Beijinho, meu querido amigo-poeta-fotógrafo!

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    1. a palavra e todas as suas inevitabilidades... breves.

      beijinho, querida amiga!

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