sexta-feira, 5 de julho de 2013

diário do verão para certezas avulsas e breves singularidades


pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer.

Al Berto, O Medo


fotografia de eurico portugal



desço
por dentro e a prumo a cada
incêndio do sangue,
do próprio deus,
a embebedar o vento no rosto
enquanto fugimos daquele
verão:

o tempo das certezas sem interrogação
a arder na claridade como
ondas invisíveis,
o querer altivo de figurações
e poemas completos:

foi o estio dos homens
grito e silêncio na generosidade dos corpos
por não poderes fugir do que não alcanças,
verão sem rosto
a dissolver frutos vermelhos dentro de ti
lentamente e sem embaraço
seguro de que as asas do voo cicatrizariam
feridas e tempo:

eu era o mistério a habitar-te as mãos,
eu, da cor dos teus olhos,
da terra húmida e do frescor que não se esquece,
eu tinha fé no tempo nas imagens e nos símbolos;
tu, apenas desejavas rosas
mas temias o vento que nada faz mexer:

o verão passou
e a boca, sentada no peito moribundo,
mordeu o silêncio branco do ar
atirado ao chão,
nenhum de nós o ousou respirar
e tu morreste
e eu morri:

regressámos aonde nunca estivemos
acreditando ter vencido o tempo das palavras
sobretudo o tempo sem palavras:

hoje,
é julho,
o mercúrio aquece a pele
e a vida inteira é mais longa do que
as sombras de abrigo:

ao regressarmos à gaveta do tempo
teremos esquecido a rota dos pássaros
e a leve alegria dos lábios
lentamente
como quem procura o outro no espelho
mas somente se encontra a si:

hoje,
é julho
e continuamos à espera da imagem do verão
e do reflexo de cada um dos seus incêndios.

16 comentários:

  1. Ontem foi julho,
    o tempo passou, a recordação ficou...
    a certeza do vivido e de tudo o que não se viveu...eterniza-se numa espera sem retorno,
    porque , hoje é julho...

    Beijinho meu, querido amigo!

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    1. são um tanto assim as inevitáveis eternidades do ter sido.

      beijinho, querida amiga!

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  2. imagens nos impregnam as retinas, como o sol a desenhar a pele, para o tanto que queima há o tanto que já fomos


    grande abraço

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    1. arderes e ardidos - a-final ar-dores.

      abraço, poeta!

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  3. o calor que arde no peito... ainda assim, acredito, há voos que permanecem, em nós e por nós, e dessa miragem, somos incêndios, doces memórias, praias solitárias, frutos vermelhos num sorriso eterno..., e assim vive o homem.

    beijinho enorme, querido amigo!

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    1. nem todos os papéis cabem na gaveta mas há aqueles que se fazem eternidade a pingar pelos dedos.

      beijinho, andy!

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  4. Este te ler, poeta querido, me abre rosas de fogo na pele. Há incêndio nos teus versos. Palavras cheias de volúpia. Eu preciso dessa ardência e ardor.

    Beijos,

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    1. e tantos são os bilhetes usados, amarfanhados e lançados ao chão após a viagem que ainda espreitam por detrás dessas rosas de fogo a atiçar a sintaxe da pele...

      beijos, amiga-poeta de delicadíssima voz!

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  5. querido eurico,

    olho para o espelho
    e do verão
    onde um dia existiu
    um homemem em chamas,
    restou um pequeno
    monte de cinzas
    e alguns ossos
    que resistiram,
    teimosos...


    no buraco da cara
    onde um dia brilharam
    duas brasas incandescentes,
    existe agora dois nacos de carvão
    adormecidos...


    (II)

    no que houver de esperança
    nesta alma em falência,
    algo permanencerá
    incólume,
    peço em prece...

    e, de algum lugar
    bem dentro
    algum vento
    haverá de soprar
    estas brasas adormecidas
    - filhas do desejo -
    de que pelo menos
    uma última palavra
    "faísque"
    no breu.


    abração do

    Roberto.

    ps: (rindo, aqui) por pouco, quase cometia mais um poema ruim...rs



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    1. roberto, amigo-irmão,
      somos combustão que tudo converte em cinza mas, como bem fazes notar, mesmo nesse auto de fé que adormece os vivos e desperta os mortos, há de haver sempre
      "pelo menos
      uma última palavra
      a faiscar
      no breu."

      a palavra e as suas eternidades, meu caro amigo!

      abracílimo!

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  6. Todo verão é cínico! Sabe que o carvão é pouco, mas arrisca acender fogueiras.

    Um poema sedutor como o fogo! ( eu, pelo menos, me encanto )

    Bj, poeta queridaço

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    1. deixa-me arder nas tuas palavras, ira, minha querida amiga-poeta de todo o tempo, seja em voz alta, seja em silêncio.

      beijo grande!

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  7. Brilhante é pouco pra quem tem fogo mas ventas...

    Beijo, poeta preciosíssimo!

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    1. o brilho que começa sempre no cristal das palavras e em suas transparências: as tuas palavras.

      beijos, cris-a-tal!

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  8. Eurico,
    Tenho uma relação controversa com a imagem do verão. Penso que é a chama, a centelha, o “fogo que arde sem se ver”; mas também representa o fugaz, o furtivo.

    Faço aqui uma apologia declarada ao outono, quando decidimos dar sequência à combustão que acendeu nosso motor sentimental, quando decidimos guardar a seiva para a estação mais fria, quando solidificamos “a condição indestrutível de ter sido”. (título do livro da querida Helena Terra).
    Isso nos garante fortes e protegidos, apesar das intempéries, pois decidimos pela evolução, pela sequência. Queremos o próximo verão compartilhado, e ele virá!

    Ao passo que pessoas-verão, se deslumbram, se encantam com o outro, e com a busca de outros e outras coisas-verão. Realizam-se apenas na chama, na combustão. Numa imaturidade plena, embora voluntária, ao optar por ficar apenas na estação do calor.
    Exemplo disso, um fragmento do romance “Castillos de cartón”, da escritora espanhola Almudena Grandes (romance que neste fim de semana, caiu como paraquedas em mim, numa feira cultural da cidade:), aqui deixo:

    “Era demasiado amor. Demasiado grande, demasiado complicado, demasiado confuso, y arriesgado, y fecundo, y doloroso. Tanto como yo podía dar, más del que me convenía. Por eso se rompió. No se agotó, no se acabó, no se murió, sólo se rompió, se vino abajo como una torre demasiado alta, como una apuesta demasiado alta, como una esperanza demasiado alta.”

    Beijos dos Pampas!

    PS.: Tive que salvar os comentários antes em bloco de notas. Não estava conseguindo postar. Agora troquei o loggin, veremos se dá. Volto para ler tua resposta e verificar se deu certo.

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  9. é o terceiro texto lido hoje que me faz pensar no como é essencial ver os arredores sob efeito de luz negra... ou de um sexto sentido!

    beijo, meu querido poeta de invisibilidades fluorescentes!

    ;)

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