sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

poema da [in]existência sobre um encanto tardio


O castigo que escolhi para mim próprio é saber aquilo que aconteceu a seguir.

José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos



fotografia de eurico portugal

passaste por mim de rompante
maldizendo
os que comem a terra e as suas larvas
os que têm relógio, tempo
e sabem de que matéria se faz a espera.
foi apenas por um instante que te detiveste à minha porta
por receares morrer aqui
[sim,
todo o corpo tem uma morte
mas nem todas são iguais]
e rejeitares ter
a vida já toda inscrita nas mãos.

eu sei,
tu és gato em rua deserta
não temente dos cães noturnos,
sem recear a luz bafienta sobre o granito
e até a tigela com as sobras da miséria te aquece o sorriso.
e passas,
passas sem um aceno, um bilhete, uma nota

e quanto àquele número de telefone:
extraviado nas azenhas do tempo
mas ainda a consumir
em fogo brando
os mesteres do olhar.

ao longe a cidade ressoa
e o canto volta as costas a tudo o que passa.
silêncio.
há um vazio nas esquinas onde perdura o teu perfume
ali mesmo
onde lavámos os nomes
e os incêndios agarrados aos corpos.
deito-me. levanto-me.
por vezes sangro e esqueço
e hoje sei tão pouco de ti
e ainda menos de mim.

o mais que adivinho já não cabe no poema.

 

16 comentários:

  1. Eurico, teus poemas me vêm tantas vezes como oráculo, a responder perguntas que mal ousei formular. E me encanta! Uma vida inscrita nas mãos, talvez me recuse a vivê-la, a transgredir as linhas. Belo poema.
    Beijos,

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    1. taninha,
      quantas das linhas que se completam sem aquele que detém as mãos... há gritos que dão sentido à voz, mas que, por terem espinhos na garganta, nem sempre ousamos.

      tão bom ter-te aqui.

      beijo, amiga de tantos poemas!

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  2. Olá, parabéns pelo blog!
    Se você puder visite este blog:
    http://morgannascimento.blogspot.com.br/
    Obrigado pela atenção

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  3. nada cabe no poema, hum? porque tudo extravasa!
    quando lemos, e o que lemos nos cabe, o que não nos pertence nos abandona... e cede lugar ao que é nosso antes de ser!

    beijo, poeta amigo! Adoro te ver a passeio, lá pelo meu mundinho! :)

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    1. depois, jô, ainda há o que julgamos pertencer-nos e aquilo que de facto nos pertence... ou antes, aquilo a que pertencemos, antes mesmo de sermos.

      acerca de viagens: há aquelas que se não evitam. :)

      beijo, querida-poetamiga!

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  4. euriquíssimo.
    o poema é bonito demais.
    e fez-me lembrar, ao final, de uma frase contida nesta canção de um amigo lá de minas gerais.

    sei que você a encontrará no link:

    http://www.youtube.com/watch?v=mzn-Ht_PEw4


    abração, eurico!

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    1. robertílimo,
      a canção-presente que aqui me deixas toca e toca e toca... equaciono postá-la num destes dias, junto com umas palavras que a calcem. já há tempos me convidaste a escutar "astrolábio" [já não me recordo bem de quem], mas como também essa melodia, então, me escolheu para lhe pertencer...

      ei, e sobre francesinhas, peter e novembros, fica a saber que cá em casa há de tudo para fazer a bela iguaria; até arroz :) bora lá? :)

      abracílimo!

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  5. Saio hoje daqui com este poema batucando meu sangue. ecos da pele de gato que me habitou um dia. seis vidas se foram com receio da morte.
    bj, amigo meu e tão querido

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    1. sobra-te uma vida, ira, como a mim e a tantos outros que se perderam na ilusão da fartura. conseguiremos fazê-la valer, no mínimo, o mesmo que as demais seis?

      beijo meu!

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  6. Eurico querido,
    belíssimo conjunto!
    Consegui vir nesta madrugada insone, finalmente, para ler-te com a alma acordada, (creio que isso acontecerá até umas 4h!).

    Certa vez, li em algum lugar uma frase: "a escolha é sempre uma perda". Se percebemos pelo ângulo da falta de escolha, ao contrário do que possa parecer, existe a possibilidade da perda se transformar em uma escolha futura.
    Quando há o descompasso entre dois ritmos existe a dor, muita dor...; mas não a perda total, pois mesmo quem é leigo em música sabe identificar a falta de harmonia.

    Às avessas, o que é inevitável, faz-se música sempre!

    Beijos muitos!

    PS.: Sigur Rós..., pois tenho que explorá-los mais.

    PS2.: Acabei por saber agora mesmo que consegui publicar em jornal importante uma crônica/devaneio que fiz em não mais que uns 5 minutos! Estou feliz! *_*

    PS3.: Tens razão, sou otimista!

    Mais beijos e te cuida, tá bom?

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  7. e no trilho da perda, há também tudo aquilo que se ganha, verdade, ana cecília?
    o ser humano tornou-se urgente ao ponto de, por vezes, confundir o que é diferido no tempo com o que o tempo inviabiliza. no pequeno hiato entre estes dois tempos, há aquilo em que se crê - não é esta uma forma de ser verdade e inevitabilidade?

    beijinho!

    p.s. sigur rós é uma das bandas que têm marcado os meus passos [e des-compassos].
    p.2.2 parabéns pela tua nova crónica que acaba de cruzar milhares de olhares.

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  8. talvez seja melhor assim, adivinhar, ter a certeza

    e ainda assim nada dizer

    [e que boas fotos andas tu a tirar, meu caro]

    beijo

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    1. laurinha,
      adivinhar e ter a certeza. alguma coisa mais é preciso dizer?

      as fotos? sorte de principiante :)

      abraço!

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  9. Eurico, sempre tão bom voltar aqui! abro a janela, desfruto, fico, volto e torno a voltar...
    e sigur rós, também adoro!

    beijinho, amigo!

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    1. andy, querida amiga deste e de tantos dizeres,
      bom ter-te aqui, também, sempre. com e sem sigur rós.

      beijinho!

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